Monday, March 16, 2026

Res-vés Campo de Ourique - farO - 18 de Março de 2026 - 12–14h e 18–21h


Res-vés Campo de Ourique 


farO, 18 de Março de 2026

12–14h e 18–21h 

Duas sessões abertas a jornalistas e amigos

*Com uma amostra da instalação RedSkyFalls e do Arquivo Sísmico Portátil, em antevisão da sua apresentação na Bienal de Veneza, a 9 de Maio de 2026* 


!Todos os eventos deste programa respondem em tempo real ao pulso temporal da actividade sísmica global, sendo desencadeados, interrompidos ou modulados ao longo da sua duração!



(em exposição permanente)


À entrada

Réplica gravada em ecrã de alumínio, Alexandre Estrela, 2025 


No grande ecrã

Greenspeaker, Alexandre Estrela, 2019–2025 (pormenor de RedSkyFalls). Projecção vídeo activada em tempo real pela actividade sísmica terrestre, altifalante forrado a papel, som mono (Miguel Abreu), ciclo aleatório infinito


Na galeria mínima 

Grün / Tchernobyl / APR. 86, Jean Dupuy

Tremblement de Terre, Toulouse-Lautrec, 1900, ad lib –“O cocktail tão potente que mesmo que a terra trema, não a irá sentir.” 

Descerramento da placa do programa Survey on an S Wave, antes da sua itinerância para Itália

(parte do Arquivo Sísmico Portátil)


(12–14h) 

No roll-up 

Flies in a maze, Alexandre Estrela, 2026. Animação gerada por dados de comportamento animal, som mono (Ian Duclos).


Na plateia

Textos abstractos e figurados de Marco Bene, farO e A Batalha, ditos por Nu No


(19–22h) 

Na plateia

Poema-Sísmicos por Nu No, 2023–2026

Sables émouvantsPascal Auger, 2001. Vídeo, cor, s/ som, 4’36’’. (parte do Arquivo Sísmico Portátil)



Em 1803, o farmacêutico e metereólogo amador Luke Howard apresentou numa das muitas sociedades científicas londrinas um ensaio sobre as nuvens. Até então todas as nuvens eram consideradas únicas e passageiras — mas Howard via nelas um problema laboratorial, uma solução nebulosa que havia de assentar. Aplicando a máxima hermética — como em baixo, assim em cima — aplicou ao céu o  método de classificação  botânica de Linnaeus, arrumando as nuvens em três tipos: cirrus, cumulus, stratus. O desenho de nuvens passou a ser, para além de uma interpretação poética, um boletim meteorológico.

Tal como Goethe, Constable foi um dos primeiros a seguir a indexação de Howard e, nos verões de 1821 e 1822, baptizou de skying (não confundir com skiing) a prática de olhar para o céu. Munido de pincéis rápidos e do supra-sumo dos pigmentos a óleo, registou as mudanças celestes, anotando em detalhe, no verso das telas, a data, a hora, a direcção e o estado do vento, usando a nomenclatura de Howard para cada formação.

Uma década mais tarde, o jovem francês Hercule Florence, artista e inventor, lançou-se na prática do skying em versão tropical. Florence chegou ao Brasil em 1824 e ingressou como ilustrador numa expedição naturalista. Nos treze mil quilómetros que percorreu por rio, registou a selva brasileira, captando a fauna, a flora, cruzando-se com várias populações indígenas ribeirinhas como os Bororo, os Munduruku, os Paresi e os já desaparecidos Apiaká, para quem o skying era a prática rotineira de quem está habituado, por responsabilidade cósmica, a segurar o céu para que ele não caia. Em 1829, finda a expedição, Florence instalou-se no horizonte desmatado que viria a ser Campinas e iniciou o album Théâtre Pittoresque-Céleste para o qual pintou trinta e quatro minuciosas aguarelas, cada uma com o tipo de nuvem, o lugar onde foi encontrada, a orientação geográfica, a data e a hora. Queria compilar um catálogo de céus, prontos a serem copiados por paisagistas europeus citadinos, sem acesso ao espectacular céu dos trópicos. Nesta tentativa rigorosa de fixar as nuvens, inventou — a partir das dicas químicas de um ajudante de farmácia adolescente — um processo pioneiro no uso de sais de prata e ouro para imprimir uma imagem em papel, fixada por um banho de urina. Embora as suas photographies e anotações precedam as primeiras fotografias de Daguerre, a fixação não resistiu ao tempo. Destas paisagens restam apenas pedaços de papel monocromáticos esbatidos, possíveis céus plúmbeos e uma série de ensaios para rótulos apotecários.

Existe uma  longa tradição de leitura dos sinais vindos do céu como augúrios  — o voo excêntrico dos pássaros, a forma irregular das nuvens, as cores estranhas do entardecer foram desde sempre vistos como indícios de mau presságio. No vermelho das nuvens cumulonimbus flammagenitus pintadas por Florence vislumbrava-se o fogo posto na Mata Atlântica — o prenúncio  de um desastre ecológico que se perpetua até hoje. Já, em céus limpos não se anuncia nada — como na manhã do Dia de Todos os Santos, em 1755, em que debaixo de um céu pio e cristalino se abriu um abismo na terra. Às 9h45 os Lisboetas fugiram da terra, do fogo e do mar, para os campos e colinas dos arredores.

Os campos Grande e de Santa Clara foram zonas de refúgio de um terramoto que chegou revés Campo de Ourique, um planalto rural que o Ministro do Rei queria passar à indústria. A população acampou no largo da igreja inacabada de Santa Isabel e, num skying involuntário, observou impotente o céu de nuvens pyrocumulus encarnadas do velho burgo a arder. 

Dezasseis anos depois da primeira pedra, a igreja permanecia sem telhado.O terramoto veio adiar a conclusão do edifício projectado por Carlos Mardel — arquitecto de chafarizes e aquedutos — reduzido à zona do altar, como um esqueleto aberto ao céu. 

Na iminência de uma derrocada, é difícil imaginar que houvesse  fiel com vontade de ali se ajoelhar. Duas décadas depois, quando a cobertura tectónica foi finalmente acabada, foi pintada de azul escuro, quem sabe em memória das noites austeras a céu aberto.

Nos dois séculos que se seguiram, o azul foi esmaecendo por acção do tempo, coberto por fissuras, eflorescências salinas, fumo, líquenes, musgos, todo um ecossistema de organismos vivos a reclamar para si  tecto. Nos anos sessenta, sob os novos ventos do Vaticano, a igreja foi renovada, aggiornata segundo as directivas do Segundo Concílio. Foram adicionados serviços administrativos modernos, residências, capelas mortuárias e um cinema — a coqueluche da propaganda moral — anexos construídos no perímetro da igreja, encostados às inabaláveis paredes do edifício. Levada pelo ímpeto restaurador, a paróquia pintou o céu da igreja de uma cor lisa: um cinzento plúmbeo — Pantone 17-1118 TPX – certamente sem relação intencional ao tecto de chumbo da prisão veneziana onde Casanova teria sentido os ecos do terramoto lisboeta. E assim ficou a egrégia Santa Isabel com este tecto pesado, até ao início do século XXI.

Em 2009, os três irmãos Appleton — Vera, Vasco e João — propuseram levantar esta tampa. Vasco, engenheiro civil, seguia as pisadas do pai, especialista em reabilitação de edifícios pré e pós-pombalinos. Vera, curadora, conhecia uma mão cheia de artistas capazes de aligeirar o tecto. João, arquitecto, coordenava o novo restauro da igreja. Foi consensual que o mural ficaria a cargo de Michael Biberstein, artista suíço, mestre do Alandroal e pintor de céus de grande formato. Biberstein aceitou, mas a 5 de Maio de 2013, prestes a subir ao andaime, teve um AVC e morreu sem ter tocado nos oitocentos metros quadrados da abóbada. Ficou apenas o projecto — estudos, relatos de colaboradores, a memória de uma intenção. Foi com este material fantasma que a Factum Arte, empresa madrilena de falsários autorizados, especializada em reproduzir obras-primas, se propôs copiar a técnica de pintura do artista feita numa dança circular.

Durante cerca de quatro meses, uma equipa de quatro pintores com sotaque espanhol acampou dentro da igreja e cobriu afincadamente a abóbada com aerossóis aquosos, criando uma aurora esfumada em tons amarelo-azulados — uma atmosfera conseguida por sucessivas velaturas acrílicas, lembrando a fase cega do pintor Turner. A abóbada de nuvens congeladas substituía o céu numa tautologia à escala real, com um tipo de nuvens por catalogar: um altostratus translúcido, algures entre o nevoeiro alpino e a neblina matinal alentejana. Tal como os grandes dioramas de Daguerre, o firmamento de Santa Isabel tornou-se num enorme ecrã de skying animado pela passagem do tempo, pelo varrimento da luz solar, ou mesmo gigantescas infiltrações. 

Em 1995, a Microsoft lançou o Windows 95 com um stock de imagens para o ambiente de trabalho, entre as quais uma pintura digital de nuvens onde flutua a janela do seu logotipo. Este foi talvez o céu mais visto do planeta, e nunca a prática de skying foi tão difundida. Seis anos mais tarde foi lançado o Windows XP e o ecrã do computador tornou-se definitivamente uma janela aberta para a paisagem natural. A imagem escolhida foi fotografada por Charles O'Rear, que lhe deu o título de Bliss — em português ou italiano, beatitude, beatitudine. Vislumbra-se um prado idílico na região californiana de  Sonoma. A bela colina verde esconde uma vinha arrasada por uma praga de filoxera, no mesmo mês em que uma nuvem de pó cinzento se elevava da queda das Torres Gémeas. Em 2013, a Apple deu o derradeiro golpe na pintura paisagista ao-alcance-de-qualquer-um, com a publicação de um catálogo de paisagens naturais idílicas para fundos de monitor. Tal como o banco de imagens de Florence, estes horizontes imaculados e impolutos pela humanidade catapultavam o utilizador para locais remotos, dispensando a experiência da viagem. Em 2017, duzentas e trinta mil toneladas de computadores Apple iluminados por uma quantidade obscena de energia eléctrica, projectavam em cada secretária do mundo a imagem digital sanguínea do pico rochoso de High Sierra — nas terras não cedidas pelos Kootzaduka'a, um povo tambem conhecido, entre os que os expropriaram, como os comedores de larvas de mosca.


Desde 2020 que o cinema da Igreja de Santa Isabel é ocupado pelo FarO, e desde esse ano pandémico que inúmeras paisagens foram projectadas no ecrã de dez metros. Este programa foi sustentado por um grupo de artistas e cinéfilos que não se importa com o desconforto de uma anca levantada por observar um ecrã sobre um chão inclinado, nem com o aparecimento incauto da paisagem do desktop de um velho Mac, entrevisto no abrir e fechar de janelas entre filmes. No último mês, o FarO sofreu inundações bíblicas, talvez um castigo divino pelas experiências ali realizadas.


É com artistas, ministros, anarquistas, burgueses e paroquianos que queremos agora partilhar nesta câmara escura esta experiência projectada em segredo, a que chamamos RedSkyFalls. Mostramos agora um anúncio do que irá acontecer em Veneza em de poucos meses, com uma amostra do grito verde deste diorama de céu vermelho, especialmente preparada para esta ocasião. A peça foi recalibrada para ter uma maior sensibilidade sísmica, captando as baixas trepidações naturais subterrâneas e respondendo, sem silêncios cúmplices, a alto e bom som, aos abalos sentidos nos territórios não cedidos do Iémen, de Myanmar, do Sudão, da Ucrânia, do Líbano, do Irão e da Palestina, sempre que lhes cai o céu.

 

RedSkyFalls

Alexandre Estrela

Curadoria de Ana Baliza | Ricardo Nicolau

 

Survey on an S Wave / Arquivo Sísmico Portátil

Curadoria de Marco Bene

 

Fondaco Marcello, Veneza

09.05–22.11.2026

 

_

 

Organização

República Portuguesa / Ministério da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes

 

Comissariado

Direção-Geral das Artes, Américo Rodrigues, Director-Geral

 

Produção Executiva e Comunicação [DGARTES]

Catarina Correia, Raquel Monteiro, Sofia Isidoro

INSTALAÇÃO

Engenharia de sistemas generativos: Ian Duclos

Sonoplastia: Miguel Abreu, Ian Duclos

Consultoria científica: Laboratório de Neurogenética da Locomoção, Nova Medical School; Moita Lab e Orger Lab, Champalimaud Research; Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA)

 

PROJECTO

Produção executiva: Mariana Vitale

Gestão de atelier e produção: Patrícia Assis

 

COMUNICAÇÃO

Identidade gráfica: farO

Design de comunicação: Ana Resende Studio

Web developer: Joel Domingues

Revisão editorial: Paloma Portela

Tradução: Paloma Portela, Sara de Chiara

Registo e montagem audiovisual: Hugo Botelho Rodrigues

Locução rádio: Natxo Checa

Audiodescrição para TV: Gabriel Abrantes

Redes Sociais: Maria Mendes

 

IMPRENSA

Imprensa nacional: Beatriz Vasconcelos

Imprensa internacional: Close Encounters PR, Nadia Fatnassi

 

APOIOS E PARCERIAS

Mecenas Principal: Fundação EDP

Patrocinadores: Galeria Travesía Cuatro, Fundação de Serralves, Casa São Roque, Rialto6, FLAD

Apoios: ArtWorks, Space Collectors, Central Projetores, Parterre, Pato em Pequim, Valchromat, Vision RIP

Parceiros Institucionais: AICEP, Camões–I.P.

Parceiros: REDCAT–Roy and Edna Disney CalArts Theater, Wattis Institute for Contemporary Arts, MALI–Museo de Arte de Lima, Galeria Zé dos Bois, farO, Emily Harvey Foundation, ESAD-Caldas da Rainha, Embaixada de Portugal no Japão

Parceiros Científicos: IPMA, Nova Medical School, Champalimaud Research

Parceiros Editoriais: Contemporânea, Electra, A Batalha, Wrong Wrong

Parceiros de Comunicação: RTP, Antena 1, Antena 2, Antena 3, Canal180, Coffeepaste, Gerador

 


FarO
Rua S. Joaquim nr. 2
Campo de Ourique, Lisboa
Entrada do lado esquerdo da Igreja de Santa Isabel


No comments: